Ying e Yang, Luz e Escuridão...

“Entro. Usando apenas o som dos meus passos como lanterna!”
Triste, ainda que poeticamente esperançoso escrevendo essas linhas, inicio esse capítulo pelo final – ou meio.
Volto do trabalho mais cedo naquela segunda. Ainda é dia... E um dia não muito quente e ensolarado. Caminho pelas ruas estreitas até El metro. Atravesso uma praça, antes, com um enorme espelho d’água, cruzo por uma passarela, uma linha ferroviária, uma enorme e linda catedral modernista. Caminho por uma rua de asfalto romano e chego a estação. Decido ir a La Rambla, olho umas lojas de instrumentos musicais, pessoas, e, ao cabo disso tudo, volto para casa.
Ainda é dia.
Curiosamente, no horário de verão, a luz do sol toca o solo espanhol às seis de la mañana e se despede as diez (quase onze, na verdade) de la noche.
 – Estamos sem luz! – ouço de irmão, ainda com a chave do apartamento na porta.
Mas é cedo... 
Segundo ele e Elisa – uma italiana que vivia no outro quarto – os técnicos haviam dito que, antes de anoitecer, o serviço elétrico estaria restabelecido em nossa região. 
Ótimo!
Largo minha pasta sobre a cama, termino de ler as últimas paginas de La Momia e caio num cochilo rápido. 
Um momento depois, Rodrigo, meu irmão, me acorda.
– Vem, vamos ao mercado!
Descemos a lomba que é nossa rua, e, um pouco depois, estávamos em frente ao Dia, o mercado mais barato da região. Uma placa nos surpreende:
“Fechado, por falta de energia elétrica!”
A mudança de rumo nos levou a outro Dia, em Joanic, em frente ao Passeig Saint Joan – onde, entre outros, figura um pequeno monumento com estátuas de Chapéuzinho Vermelho e o Lobo Mau.
Ao terminarmos as compras (incluídas duas Xibecas de litro a 1 euro cada, morram de inveja) já havia quase anoitecido. Em casa, percebemos estarrecidos que os técnicos estavam enganados. Estávamos sem luz elétrica e quase sem luz solar.
Um pouco aborrecido, vou até uma praça onde espanhóis pensam jogar futebol, e ali fico até a escuridão cobrir tudo o que os olhos alcançavam. Volto para o apartamento, pensando no desperdício que é tomar cerveja quente...
"Entro, usando apenas o som dos meus passos como lanterna!"
Mentira... uso também o celular. Juan, o francês que mora conosco se despede cedo. A não ser pelo conversa, em castelhano, entre meu irmão e Elisa no quarto da italiana, o resto repousa no mais profundo silêncio. Chego ao nosso quarto. De frente para o prédio existem dois outros prédios... A luz do dia, os vejo da minha janela. Agora só posso divisar as luzes das velas em alguns apartamentos, diversas como numa árvore de natal.
Deito em minha cama, onde posso ver um largo canto do céu. Escuro. 
Penso nos dias difíceis do começo. Sinto a solidão me olhando do escuro mais profuso do quarto. Penso nos amigos, na família... adormeço.
Num segundo depois acordo com um estridente panelaço.
Revoltados com a situação de não ter luz, aparentemente nova para o povo daqui, e prevendo que a noite se resultaria nisso, as pessoas da “vizinhança” saíram às suas varandas e começaram, literalmente, a bater panela... 
E o panelaço se foi longe, entre gritos de “Revolution!” do Rodrigo e buzinaços dos carros que passavam...
  É um forma de protesto  explica meu irmão  começou em Buenos Aires, na guerra do Iraque!
Acompanhávamos tudo, tomando cerveja, no quarto de Elisa. 
A duração disso foi pouco mais do que uma hora. Vencidos pela escuridão, os espanhóis vizinhos rendiam seus panelaços ao silêncio, aos poucos. 
Até não sobrar som algum...
Era a cena mais deprimente, desde a minha chegada a Espanha. No escuro, bebendo cerveja quente e jogando no celular, enquanto meu irmão seguia trovando uma italiana que media duas vezes o tamanho dele na largura. Triste mesmo, foi na hora de ir ao banheiro. É a maior humilhação do ser humano, penso comigo. A bateria do celular se entrega de vez.
Então Rodrigo pergunta a Eliza se ela tem preferencia por algum seriado. 
(Chegamos ao ápice - alguns podem naum perceber. Bem aqui, agora, atravessamos o Ying e o Yang, a mudança.... É quando as coisas começam a caminhar para a escuridão eterna.) 
Segue:
Ao que ela responde que gosta de Sex on the City e O.C.
Acabo no banheiro, mas antes escuto o comentário em castelhano: 
“Nah... Eu não consigo entender Sex on the City – Rodrigo diz – parece os filmes do Woody Allen do início dos anos oitenta... E O.C., pelo que parece, está acabando, hein!!! Andei vendo na internet que a Marissa morre no final da terceira temporada..."
Será que eu entendi bem?!
Alguém percebeu o elo perturbador da mudança?
Certo, O.C. pode não ser uma série fantástica.... Mas a dita cuja, falecida é uma das mocinhas da série, criada e desenvolvida para terminar o seriado com o mocinho, estou enganado?
A realidade me acerta como um choque.
O que, pelo amor de deus, perpetua, se o que era pra ser definitivo passa?O que, entre luz e sombra, é real e o que não é?
escuridão da noite se vai... o dia chega... a luz elétrica volta no final da tarde.
Tudo, ao que parece volta ao normal... 
Será?! 
Daqueles planos que a minha vontade projeta no horizonte do outro dia, quais expectativas serão concretizadas, quais serão abraçadas pelo esquecimento?
De volta a minha cama, a solidão de seu acampamento negro conversa muito com as dúvidas que se chegam.
Durmo, levanto, durmo, levanto....
A escuridão de Barcelona nunca passa.
Chega a um ponto em que percebo: A decisão é minha: Fico para trás ou continuo andando!
"Respiro fundo e entro na escuridão. Usando apenas o som dos meus passos como lanterna."

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